| |
Alex,
da gravura ao "grafitti", interveio na cidade
na década de 80, apropriando-se de seus espaços
exteriores e interiores.
O
nome de Alex Vallauri é sempre associado ao
"graffiti", mas suas intervenções,
de 1978 a 1987, na cidade de São Paulo, decorrem
de uma vivência de duas décadas dedicadas
à gravura. De todas as técnicas, o "graffiti"
é a que mais o aproxima do seu ideário
de uma arte para todos: "Enfeitar a cidade, transformar
o urbano com uma arte viva, popular, da qual as pessoas
participem, é a minha intenção".
Como
gravador, Alex não utiliza procedimentos tradicionais;
suas matrizes são recortadas como módulos
que, associaddos durante a impressão, possibilitam
diferentes composições. Na XI Bienal
Internacional de São Paulo, 1971, Alex participa,
com três xilogravuras de grande formato, da
coletiva GravuraSala Didática, que reúne
trinta e quarto gravadores brasileiros.
O
interesse de Alex Vallauri peo kitsch aparece nos
anos 70, quando estampa camisetas com imagem da Santa
Ceia de Leonardo da Vinci, diretamente de um alto-relevo
em metal, comercializado em lojas de artigos religiosos;
e quando cria o múltiplo Sapato de Salto Agulha
, contruído a partir de uma fôrma de
madeira para fazer sapatos e de um salto plástico,
com sete e meio centímetros de altura, unificados
pela cor vermelha.
A
partir daí Alex intensifica seu interesse pelo
tema, e inicia em 1974 o registro fotográfico
de painéis de azulejos, pintados na década
de 50 nas paredes de bares e restaurantes de São
Paulo, procupado com possíveis reformas e demolições.
Os motivos repetem-se com freqüencia: bailarinas
clássicas, dançarinas espanholas, moças
com cestas de frutas, ou de pães ladeadas por
espigas de trigo, e vistas do centro da cidade mostrando
a urbanização do Vale do Anhangabaú.
A maior parte dos murais traz a assinatura do Atelier
Moral , visitado por Alex que entrevistou o proprietário.
Esta
documentação resultou no audio visual
Arte para Todos, apresentado em 1977 na XIV Bienal
Internacional de São Paulo, que propunha um
debate internacional sobre o tema "O Contemporâneo
na Arte". Alex se inscreve em uma das sete proposições
em debate Arqueologia do Urbano que, nas palavras
do Conselho de Arte e Cultura: "São imagens
das constantes modificações... de construção/destruição/reconstrução
do meio urbano."
A
XIV Bienal, ao propor sintonia com o contemporâneo,
e ao se tornar um espaço de experimentação
e não de consagração, alinha-se
com o pensamento da comunidade de artistas e profissionais
ligaados à arte neste período. Sérgio
Miceli e Silvana Rubino registraram esta tendência:
"A questão internacional versus nacional
ganha novas formas e conteúdos. Não
se procura mais aquilo que é tido como genuinamente
nacional, pois o Brasil se integra à nova sociedade
de massas mundial e a crítica desse período
não é mais a mesma dos artistas politicamente
engajados dos períodos anteriores. Seu espaço,
por excelência, é a cena urbana. A metrópole
vira tema, motivo, linguagem e conteúdo."(1)
Após
a documentação ddo kitsch urbano na
decoração de bares e restaurantes, Alex,
como artista gráfico, volta seu interesse para
motivos de papéis de embrulho de confeitaria,
padarias e estabelecimentos comerciais; passa também
a colecionar carimbos de uma fábrica de clichês,
com desenhos dos anos 50. Chega a reunir 400 carimbos,
de várias procedências, que vão
compor seu repertório de imagens usadas nos
"graffitis", álbuns de arte postal
e livros de artista.
O
audiovisual Arte para Todos explora espaços
públicos, e esta motivação, aliada
ao interesse pelos carimbos, irá impulsioná-lo
para a intervenção na cidade com o "graffiti".
Em
depoimento ao arquiteto e pesquisador Valdir Arruda,
Alex comenta a passagem da documentação
de interiores públicos para a intervenção
de rua, em espaços exteriores, e seu repertório,
de imagen utilizados nos "graffitis": "Depois
desse trabalho de documentação de murais,
eu comecei a ver esse movimento de poesia, de "graffiti".
Meu "graffiti" tem muita coisa de carimbo
e publicidade, coisas de iconografia de massas, que
já são muito conhecidas e que já
estão no inconsciente coletivo. Eu tentava
fazer uma imagem que as pessoas pudessem reconhecer,
pois na rua qualquer pessoa passa; então, quando
pego estereótipos, tento, simplificar ao máximo,
para fazer uma imagem de rápida gestalt, de
indentificação imediata." (2)
Em
1978, Alex inicia anonimamente a edição
contínua do "graffiti" da bota preta,
de salto agulha e cano longo, espalhando-a por toda
a cidade. Na série da bota, em escala maior
que o natural, Alex inicia grafita usando tinta em
bisnaga aerosol sobre uma matriz de papelão
vazado, fixada sobre a parede, sem detalhes, como
uma sombra projeta em silhueta.
Em
outubro desse ano, através da arte postal,
envia para artistas e amigos, seqüencia de postais;
combina neste trabalho o xerox de cartão postal
dos edifícios Itália, Copan e Hilton,
e o carimbo da bota preta que se sobrepõe aos
edifícios, com um texto no verso a respeito
da bota que invade a cidade. Para
divulgar o "graffiti" da bota, Alex escreve
com Túlio Feliciano o álbum de arte
postal Trajetória Passo a Passo. Completa sua
ocupação do espaço público
com a bota estampada em serigrafia sobre camisetas,
criando um "graffiti" móvel.
Giulio
Carlo Argán, ao definir espaço urbano,
confirma a concepção intuitiva de Alex
de invadir com a bota a cidade de São Paulo
("graffiti"/arte postal/camisetas serigrafadas):
"São espaço urbano também
os ambientes das casas particulares; retábulo
do altar da igreja, a decoração do quarto
de dormir ou sala de jantar, até mesmo o vestuário
e o ornamento com que as pessoas se movem, recitam
a sua parte na dimensão cênica da cidade."
(3)
Além
dos carimbos, Alex se apropria de imagens do universo
da história em quadrinhos e da história
da arte a pantera, de Jim das Selvas, de Alex
Raymond (década de 40) e o acrobata, detalhe
do quadro O Circo (1891, inacabado), de Georges Seurat
(1859-1891).
Há
uma sintonia na escolha da imagem do acobrata, que
executa uma pirueta de costas, e cujo movimento Seurat
simplifica, e do qual Alex ao eliminar os detalhes
todos os detalhes, transforma numa silhueta. Robert
H. Herbert (4) prova que Seurat
tomou a figura do acrobata emprestada de um cartaz
de rua de Jules Chéret (1836-1931).
Sheila
Leirner define o "graffiti": O "graffiti",
de modo geral, sussesor dos affiches, é o recurso
metropolitano de linguagem mais popular e espontâneo
usado no nosso século. Convivendo
com os outdoors os cartazes de rua, e a massa de informações
visuais indrustrializadas e de consumo, ele representa
sobretudo aquele conjunto artezanal de imagens que
a movimentação do homen naturalmente
desenha. A pichacão como arte tem seu lugar
bastante defenidodentro das chamadas artes plásticas,
sempre a um objetivo democrático...(5)
Da
rua para rua, a apropriação de Alex
nos anos 80 fecha o ciclo iniciado por Seurat quando
"empresta" de Chéret, em 1891, o
acrobata.
Concluímos
com Clément Greenberg que: "A cultura
superior é uma das mais artificiais de todas
as criações humanas...(6)
Em
1981, Alex passa a ocupar espaços cada vez
maiores com seus "graffitis"; compõe
três panteras em arco e três acrobatas
em círculo, em movimento seqüencial. Cria
o "graffiti" dos perfis que se beijam, completados
a traço livre, onde os lábios são
dois corações partidos.
Nesse
mesmo ano, o "graffiti" cosegue seu reconhecimento
oficial quando alex apresenta, a convite de Fábio
Magalhães, a documentação de
seus três anos de trabalho no audio visual Interferência
Urbana-Graffitis de Alex Vallauri, em sua exposição
Muros de São Paulo, na Pinacoteca do Estado.
Convidado por Júlio Plaza, participa ainda
da exposição de Arte Postal, na XVI
Bienal Internacional de São Paulo, sob curadoria
geral de Walter Zanini.
Pelo
conjunto de sua obra, em 1981 recebe o prêmio
Arte Comunicação, da Associação
Paulista de Críticos de Arte.
A
partir dos "graffitis" da bota, da luva
que aponta, do sutiã pontilhado, completado
a mão livre, começa a tomar forma o
"graffiti" de uma mulher. Apresenta esta
mulher com recursos gráficos que permitem rápida
indentificação: cabeça de perfil,
torso frontal e perfis de pernas com botas de salto
agulha.
Em
oposição ao desenho idealizado da mulher
na publicidade dos anos 50, cria a pantereta de pele
morena, cabelos escuros, feições com
traços fortes e lábios carnudos. Ela
surje pela primeira vez em Nova Yorque, quando em
1982 grafita o mural de Tomkins Park, East Village,
Manhattan, por encomenda da prefeitura. Durante a
elaboração dese mural, questionado pela
comunidade afro-latina, muda a cor da pele e dos cabelos
para melhor indentificação com os moradores
do bairro. Daí em diante incorpora esta consciência
ideológica na criação de seus
personagens.
A
partir de 1983, em suas instalações
e intervenções em interiores de residências,
confunde com humor o olhar quando intercala móveis
e seus fac-símiles em escala real. Cria imitações
de objetos de consumo ao camuflar elétrodomésticos
com estampa de onça.
Em
1985, apresenta na XVIII Bienal Internacional de São
Paulo, a convite da curadora Sheila Leirner, a Festa
na Casa da Rainha do Frango Assado. A intalação,
distribuída em 88 metros quadrados, é
dividida em painéis que definem as áreas
úteis da casa. O mobiliário e os objetos
são da década de 50, parte reais, parte
virtuais, grafitados nos painéis. Todos os
elétrodomésticos eo Monza 85, cedido
pela GM, recebem estampa de onça. Músicos
e panteretas grafitados surgem sentados à mesa,
de pé, na banheira, no chuveiro, ao lado de
janelas com vista noturna da cidade. Ao
lado barman, bebidas oferecidas por um patrocinador
são servidas, e a trilha sonora da Festa...
são as salsas da cubana Célia Cruz.
De
maneira irônica, parodia com uso deliberado
deo kitsch a sensualidade esteriotipada da mulher
latina, transportando o apelo erótico da estampa
de onça de suas roupas para toda a instalação
da casa.
A
propósito da Festa na Casa da Rainha do Frango
Assado, Alex disse: "Niguém consegue viver
longe do kitsch, porque ele faz parte da realidade
de qualquer pessoa, do mendingo à rainha da
Inglaterra. O kitsch é uma situação
romântica, e eu incorporei móveis e utensílios
domésticos ao repertório.
Durante
toda sua trajétoria profissional, Alex criou
um arquivo de imagens refêrenciais da década
de 50, colecionando retalhos de tecidos, capas de
discos e material gráfico em geral. Dentre
as suas lembranças de infância, na Argentina,
estão exprimentações sensoriais
como aprender a diferenciar estilos de móveis
e objetos no antiquário de seus pais e a ouvir
músicas latinas, tangos, boleros e as interpretações
de José Feliciano e Célia Cruz. Alex
encontrava muito humor no sentimentalismo destas canções,
que o acompanhavam em todas as suas horas de trabalho
na oficina e como trilha sonora de suas exposições.
Seu
comprometimento com o kitsch, sua opção
pela silhueta e por imagens de leitura rápida,
facilmente indendificáveis, o uso do trompe-l'oeil
criam espaço e tempo para que seu clichê
da década de 50 caiba nos anos 80.
Trazer
o passado para o presente, apropriar-se de imagens
e recontextualizá-las, fazer interferências
na cena urbana, são atitudes que legitimam
Alex como artista dos anos 80, impregnado de pós-modernidade.
|
|