Stencil Art na Contemporaneidade:
Uma Homenagem a Alex Vallauri

 
     
  Alex Vallauri nos anos 70 recupera para a arte contemporânea a técnica do Stencil Art, utilizada na modernidade, nos anos 30, pelos artistas da Ècole de Paris. Vallauri retoma este antigo procedimento de impressão - utilizado pelos grandes pintores, inclusive no renascimento - adaptando-o às artes plásticas contemporâneas.
Alex Vallauri, criador de figuras irônicas e ao mesmo tempo belas, simples e ao mesmo tempo complexas, abriu caminho para uma legião de artistas, que em vez de usar os materiais convencionais da arte usaram a cidade como suporte para as suas obras.
Aparece assim a escola vallauriana: artistas que utilizam o Stencil Art e, com o passar do tempo, transmitem por intermédio de oficinas artísticas, o ideal de Vallauri para as novas gerações: "transformar o urbano como uma arte viva".
O crítico e historiador de arte Roberto Pontual, no seu livro Explode Geração, sinaliza a importância de Vallauri e do Stencil Art para um grupo de artistas jovens que complementariam, no futuro, a sua empreitada artística: "Alex andava povoando os muros paulistanos com a figura da Bota Preta, por ele próprio classificada como a moça que passeia por São Paulo. Essa figura e outras imagens - silhuetas, sempre de uma cor só, geralmente o preto, proporcionavam uma leitura rapidíssima, quase automática, ao passante que desse por elas".
Posteriormente, o próprio Alex Vallauri, Waldemar Zaidler, Carlos Matuck, Hudinilson Junior, Maurício Villaça, Vado do Cachimbo, Carlos Delfino, Jaime Prades e, entre outros Eduardo Castro, Eymard Ribeiro, Job Leocádio, Jorge Tavares, Júlio Barreto, Gitahy, Ozéas Duarte e Cláudio Donato (que participam desta mostra em homenagem a Alex Vallauri) idealizaram máscaras/matrizes de Stencil Art "altamente pormenorizadas" que não se prestavam mais, por exemplo, a multiplicação desenfreada da Bota Preta do próprio Vallauri, dando início, assim, a uma nova fase de suas carreiras. O requinte gráfico, plástico, colorístico e estético alcançado com o uso de matrizes, segundo Roberto Pontual "altamente pormenorizadas" reavivou nos jovens artistas o desejo de pintar áreas cada vez maiores, intervenções urbanas/revitalizações contemporâneas de antigos painéis murais criados por importantes artistas do modernismo brasileiro: Emiliano Di Cavalcanti, Antonio Carelli, Clovis Graciano, Fúlvio Pennacchi e entre outros Alfredo Volpi.
Uma forma de expressão do cotidiano urbano - signos, imagens com múltiplas interpretações e leituras criadas por artistas idealistas - que têm como meta principal simplesmente embelezar a cidade de São Paulo. Resignificá-la, vivificá-la por intermédio de formas e cores.
Uma arte desvinculada de todo e qualquer conformismo social, econômico. Livre de estatuto e da estratificação da arte pensada para ser comercializada nas galerias de arte ou mumificadas por convenções e ou imposições de vanguardas alheias à realidade brasileira.
A polêmica criada pelo uso do Stencil Art nas intervenções urbanas recebeu nos anos 80, críticas e muitos elogios de personalidades e artistas ligados ao mundo das artes plásticas. Décio Pignatari, além da apreciação, considerou os painéis como "grandes obras de arte do folclore urbano", indo de encontro, mais uma vez, aos ideais de Alex Vallauri que: "sempre quis registrar uma mensagem alegre, uma doce brincadeira no meio da aridez urbana".
Em 1988, o então diretor do Museu de Arte de São Paulo - MASP, Pietro Maria Bardi revelou que os muros pintados "podem propor mais um modo estético, vindo do pop, nesta procura incessante de dar a pintura sua razão de ser: comunicar idéias, acontecimentos e gerar comentários, função que desde sempre foi reservada àquela arte".
O artista plástico José Roberto Aguillar considerou estes criadores idealistas de: "os beatniks dos 80. Uma mistura de Kerouac e Pollock nos trópicos (...) de bandidos chegaram a heróis no final dos 80. Não mais a prisão mas o museu de vanguarda. lmpulsionados pelo Santo Alex Vallauri, ele mesmo o rei Arthur, com seus cavaleiros à procura do santo spray-graal".
Alex Vallauri foi considerado por Edward Lucie-Smith no livro Art Today editado pela Phaidon no ano 2000 (um estudo particularizado sobre a arte contemporânea realizada nas últimas décadas do século XX), um dos mais importantes artistas. Para o mesmo autor a sua instalação idealizada em Stencil Art para a 18º Bienal Internacional de São Paulo, em 1985: "A Festa na Casa da Rainha do Frango Assado" foi um dos raros destaques da participação latino-americana na arte contemporânea do último quartel do século passado.
Assim, estes artistas além de participarem da exposição Stencil Art na Contemporaneidade doam à metrópole e, em especial, à comunidade da Zona Leste de São Paulo, o que eles têm de melhor, a sua arte: uma pintura mural de 350 m2 de área, intervenção urbana que transforma uma parte da cidade, permanentemente, num laboratório artístico-visual, onde não existe limitação de tempo, espaço e público.
Eduardo Castro, Eymard Ribeiro, Job Leocádio, Jorge Tavares, Júlio Barreto, Celso Gitahy, Ozéas Duarte e Cláudio Donato, que já participaram de exposições importantes, coletivas e individuais no Brasil e no exterior, como por exemplo, a Bienal de São Paulo, com obras de grandes dimensões, impressas sobre suportes variados, como azulejos, madeira, lona de caminhão, telas e recortes de plástico reciclado, nesta mostra Stencil Art na Contemporaneidade, além de homenagear Alex Vallauri, dão prosseguimento aos ideais que nortearam este pioneiro nos anos 70 e 80.
A vontade de levar a arte às ruas e também o desejo de mostrar suas criações plásticas a um público maior, diversificado, numa cidade desgastada, suja, desprestigiada, não apenas pelo poder público, mas, inclusive, por uma parcela da população que só vê a cidade como uma Caixa de Pandora.
 
     
 
João J. Spinelli
Curador
Membro da Association lnternational de Critique d'Art - AICA - UNESCO - Paris

Texto para catálogo da exposição de Stencil Art, UNICID, São Paulo, 2001.
 
     
 
     

Alex Vallauri: trajetória passo a passo
Por Maria Olímpia de Mello Vassão e Maria Adelaide do Nascimento Pontes, para artigo da Revista D'Art, número 02, 1998.
 
     
  Grafiteiros passo a passo rumo à virada do milênio
Por Celso Gitahy, para artigo da Revista Cidade (Revista do Patrimônio Histórico/Secretaria Municipal de Cultura), número 03, 1995.

 
     

Graffiti uma arte bem urbana
Por Marcos Villaça