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Hudinilson
Jr.
Não
é a toa que o artista plástico Hudinilson
Jr. sempre buscou o corpo masculino com seus olhos
narcisicos. Seja na xilogravura, no xerox ou na colagem.
Com o grafite não poderia ser diferente. Corpos
de Deuses Gregos chegaram a passear pela cidade de
São Paulo. Atualmente, estão dispostos
sob vinil adesivo na exposição do Sesc
Paulista, Aderência, que fica até o final
de Setembro. Ele participou também do grupo
3nós3, que no começo dos anos 80, lacrou
galerias, ensacou esculturas e costurou estruturas
urbanas. Ficou amigo de Alex Vallauri enquanto fazia
seu grafite num muro no centro da cidade.
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Maiá:
Como você foi parar no grafite?
Hudinilson: Sou
artista plástico e grafiteiro. Minha trajetória
está ligada ao 3nós3. Por volta de 1978,
conheci o Mário Ramiro e o Rafael França,
meus parceiros no grupo. Ramiro e eu trabalhávamos
como entregadores do Imposto Predial. Eu já fazia
arte postal. Eles eram alunos da ECA (Escola de Comunicação
e Arte) e eu da FAAP (Fundação Armando
Alvares Penteado).
Maiá: O
que era a arte postal?
Hudinilson: Fazia
colagens, depois xerocava, criava envelopes e mandava
pelo correio. Acabei me correspondendo com o mundo inteiro.
A minha temática sempre foi o corpo masculino
independentemente de trabalhar com xilogravura, xerox
ou grafite. Aprendi xilogravura no Museu Lasar Segall.
Na IAD (Instituto de Artes e Decoração)
conheci o trabalho da Regina Silveira.
Maiá: Como
nasceu o 3nós3?
Hudinilson: Por
volta de 1978, o Ramiro e o Rafael iam participar de
uma exposição de xilogravura, carimbo
e desenho na Estação São Bento.
Convidaram-me para expor. Naquela época, o movimento
punk começava a pipocar na São Bento,
como foi posteriormente com o Hip hop. A polícia
reprimia o movimento. Por isso, os punks iam à
exposição porque lá a entrada dos
guardas não era permitida. Com isso, criamos
uma oficina de xilogravura para os Punks que fizeram
trabalhos com símbolos da suástica, caveira,
crucifixo
Hoje, esse material faz parte do acervo
da Pinacoteca. Depois da exposição, íamos
para a casa do Rafael, perto da Praça do Marechal
Deodoro. Pensamos em fazer algo com a estátua
do Marechal no dia da posse do pesidente Figueredo:
jogar tinta, cobrir de jornal... Perto do dia, não
fizemos a intervenção porque ficamos com
medo da quantidade de policiais na rua. Mas resolvemos
ampliar a idéia da intervenção:
mexer com outras esculturas da cidade.
Maiá: O
primeiro trabalho foi, então, uma intervenção
com as esculturas?
Hudinilson: É
foi; isso aconteceu em 1979. Primeiro, fizemos uma lista
das esculturas da cidade. Compramos sacos plásticos
grandes e com um roteiro, ensacamos 50 esculturas. Começamos
no Museu do Ipiranga, passamos pelo Monumento das Bandeiras
e fomos para o centro da cidade.
Maiá: Quanto
tempo durou?
Hudinilson: Começou
à meia noite e terminou às 6h da manhã.
Maiá: Vocês
colocaram os sacos nas cabeças das esculturas?
Hudinilson: É,
colocamos. De manhã voltamos à Paulista
para ver a reação do público. É
muito engraçado. Normalmente as pessoas não
prestam atenção nas esculturas, mas o
simples fato de colocar um "ruído",
como o plástico, faz com que as pessoas olhem.
Maiá: E
a intervenção ficou quanto tempo na rua?
Hudinilson: Ah,
pouco tempo. Um dia, no máximo dois. Era efêmero.
Por isso, buscamos um registro maior. Ligamos para todos
os jornais de São Paulo e falamos da intervenção
como se fôssemos cidadãos anônimos:
"Moro aqui na Paulista e quero saber o que a Prefeitura
vai fazer com essa escultura do Trianon. Será
que eles vão tira-la daqui? Ela está ensacada".
Depois ligava outro, falando: "É um absurdo!
Colocaram um saco de plástico na cabeça
da estátua
" No dia seguinte, todos
os jornais da cidade deram a notícia da intervenção.
Alguns até na primeira capa.
Maiá: E
quando nasceu o nome 3nós3? Antes ou depois das
esculturas ensacadas?
Hudinilson: No segundo
trabalho que questionava o espaço das galerias.
Como as galerias estavam fechadas para uma arte mais
jovem, resolvemos lacrá-las. Compramos rolos
de fita crepe e, numa madrugada, fizemos um X nas portas
das principais galerias. Deixamos também um panfleto
dentro, com a seguinte frase: "O que está
dentro fica, o que está fora se expande."
Maiá: E
vocês assinaram 3nós3 no panfleto?
Hudinilson: Uma
repórter do Jornal da Tarde cobriu a performance.
No dia seguinte, uma foto com nosso nome (o que não
era para acontecer) saiu no jornal. Por conta do caso,
assumimos o nome 3nós3 para o grupo.
Maiá: E
depois da galeria, o que o 3nós3 fez?
Hudinilson: Em 1980, fizemos
uma intervenção nos dois "buracos"
da Paulista com a Dr. Arnaldo. A idéia era costurar
os "buracos" com plástico. O plástico
começava na Rua da Consolação,
entrava num buraco e saía do outro lado na Paulista.
Demoramos para conseguir um patrocinador. Afinal, eram
100 metros de plástico mas a empresa Plastfive
vestiu completamente a camisa do 3nós3.
Maiá: Quanto
tempo a intervenção ficou no buraco da
Paulista?
Hudinilson: Uma
madrugada. Nós voltamos pela manhã e já
estavam retirando o plástico. A polícia
apareceu e pediu nossos documentos. Dissemos que éramos
alunos da FAU e tínhamos achado interessante
a intervenção porque mudava a cara da
cidade. Um guarda disse que estava preocupado com a
segurança. Mas o plástico não tinha
como cair, porque os cálculos eram precisos.
Foi feito com uma resistência especial para durar
no mínimo 15 dias. E a cor também tinha
um pigmento especial para poder suportar melhor a exposição
ao ar- sol e chuva. Para o guarda, no fundo, só
havia um problema com a intervenção: a
cor. Estávamos saindo da ditadura e vermelho
era a cor do comunismo.
Maiá: Vocês
sempre usavam plásticos vermelhos?
Hudinilson: Sempre
era vermelho, pelo contraste com a cidade. Só
fizemos um trabalho amarelo no viaduto da Sumaré,
onde hoje passa o metrô.
Maiá: Depois
disso, o que vocês fizeram?
Hudinilson: Fizemos
uma língua enorme de plástico vermelho
que saía de dentro do respiradouro entre Rebouças
e Dr. Arnaldo. O trabalho ficou mais tempo porque não
atrapalhava o trânsito.
Maiá: Quanto
tempo durou o 3nós3?
Hudinilson: O 3nós3
durou três anos. O grupo acabou em 1982 porque
o Rafael ganhou uma bolsa para estudar em Chigago. Pensamos
em colocar alguém no lugar dele, mas não
fazia sentido. Sou amigo do Ramiro até hoje.
Infelizmente, o Rafael faleceu.
Maiá: Vocês
sempre embrulhavam viadutos, pontes e ruas? E o grafite?
Hudinilson: É.
Brincávamos com as estruturas da cidade. Naquela
época, não se falava em grafite, mas em
pichação. Poetas independentes faziam
textos soltos; era uma brincadeira com as palavras.
Ninguém sabia o que era o Le Famu. Nós
conhecíamos os trabalhos de alguns alunos da
ECA, como o Hendrix, mandrax, mandrix, de Walter Silveira
e o Hora H, do Tadeu Jungle.
Maiá: O
Alex Vallauri já estava com a botinha?
Hudinilson: O Alex
começou a pintar a botinha em todos os lugares
e ninguém sabia o que significava. Existia também
o Cão Fila que era uma propaganda de um criador
de cachorro, no Km26, em São Bernardo. A botinha
não tinha referência. Achei interessante
e sugeri ao 3nós3 para fazermos algo dentro do
universo do grafite. O Ramiro e o Rafael não
se interessaram. Comprei uma lata de spray e saí
pela cidade. Assim, surgiu meu grafite. Comecei a fazer
uma "bocona" vermelha com os dizeres: Ah,
beija-me.
Numa madrugada, vi um muro branco, lindíssimo,
perto do Museu do Ipiranga; fiz uma boca enorme. Uma
prostituta lascou-me um beijo na boca. Fiz outra boca
na Rua Vieira de Carvalho - que era o point dos gays
-, e um cara também me deu um beijo. Então,
o Ah, beija-me tornou-se mais constante pela cidade.
E, voltando a pé para casa, vi, na Rua Aurora,
um muro branco. Quando estava acabando o grafite, vejo
uma figura pequenina, toda agitada, colocando uma imagem
na parede. Ele estava tão nervoso que nem me
viu. Tirou um spray da bolsa e fez a imagem: a botinha.
Foi engraçado
Ele levou o maior susto, porque
não tinha me visto. Saímos de lá
e fomos tomar uma cerveja. Ficamos amigos.
Maiá: Vocês
grafitavam juntos?
Hudinilson: Nós
saíamos para grafitar. Eu servia de apoio para
ver se vinha polícia. Eu queria grafitar, mas
não sabia o que fazer. Nessa época, fazia
arte xerox. Só desenvolvi minhas máscaras
em 1985.
Maiá: O
que era a arte xerox?
Hudinilson: A arte
xerox começou quando a ECA ganhou uma máquina
de xerox para os alunos. Como a minha temática
sempre foi o corpo masculino, eu tinha que trepar com
ela. Consegui com a máquina de um amigo. Fiz
uma performance no Mam no Rio de Janeiro e outra na
FAAP em São Paulo. Xerocava meu corpo inteiro:
começava pelo rosto, abria o macacão,
descia pelo peito até ficar pelado. Em 15 minutos
de performance, reproduzia cerca de 250 cópias
do meu corpo. As cópias caíam no chão
e as pessoas pegavam
.
Maiá: Queria
que você falasse mais da sua amizade com o Alex.
Hudinilson: No fundo,
todos nós temos alguma coisa do Vallauri. Ficou
forte demais.
Maiá: Então,
você grafitou com máscara, pela primeira
vez, na época da Bienal?
Hudinilson: É.
Na época da Casa da Rainha do Frango Assado,
da 18ª Bienal. Todos os amigos do Alex fomos ajudar
a montar a casa. Ao mesmo tempo, haveria a Feira da
Primavera no Ibirapuera que convidou o Alex, o Maurício
Villaça e eu para fazermos um painel no parque.Como
era um mural enorme, não dava para fazer o Ah,
beija-me- iria ficar ridículo. Daí, inventei
rapidamente um grafite. Peguei como referência
os deuses gregos da enciclopédia Lelo Universal.
Interessavam-me apenas os corpos dos deuses. Resolvi
fazer o Narciso. Criei o Olimpo de Narcisos; era a identificação
com os deuses. E as máscaras, aprendi com o Alex.
Maiá: Como
foi fazer esse primeiro grafite?
Hudinilson: Foi
uma maratona. Ao mesmo tempo em que fazíamos
a marquise do Ibirapura, tínhamos que subir no
último andar da Bienal para fazer a Casa da Rainha
do Frango Assado. O Vallauri achou bonito meu trabalho,
mas disse que não tinha a linguagem do grafite.
Precisaria ser mais direto como acontece no outdoor.
Para ele, o grafite precisava ser entendido pelas pessoas
que andam de carro, de ônibus; devia considerar
o movimento. O meu era para quem andava a pé.
Maiá: Você
fazia os deuses gregos na rua?
Hudinilson: Acho
que fiz, poucas vezes, os deuses na rua porque era complicado
carregar as máscaras e tintas. Só fazia
o Ah, beija-me. Lembro-me de uma vez que saí
com o Eduardo Castro que morou na minha casa enquanto
estudava artes plásticas na Faap. Levei-o para
grafitar perto da Pinacoteca. Já era tarde, não
tinha ninguém na rua. O Eduardo ficou de olho
na rua enquanto eu grafitava. De repente, ficou um silêncio,
quando me virei, vi um carro da polícia e dois
guardas.
Maiá: O
que aconteceu?
Hudinilson: Eles
foram super simpáticos. Ajudaram-me a guardar
os sprays, as máscaras e pediram para a gente
entrar no carro. Fomos parar numa delegacia no Bom Retiro
onde nos deram um chá de cadeira. A delegada
perguntou se estávamos fazendo pichação.
Expliquei que éramos artistas plásticos
e que auilo era grafite. Acabei dando uma aula para
ela que depois, pediu para fazermos um grafite na delegacia.
No final, ela nos liberou mas ficou com algumas latas.
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Entrevista
realizada pela jornalista Maiá Prado, dia 23
de agosto de 2005.
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