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Waldemar
Zaidler
É
um dos precursores do Stencil Graffiti em São
Paulo. Em 1979, começou a grafitar em parceria
com Alex Vallauri e Carlos Matuck. Zaidler formou-se
na FAU e grafitou na rua até 1985. Com uma sabedoria
doce, gosta de contar histórias de grafite e
pensar seriamente a questão da intervenção
urbana. Zaidler continua a criar imagens fortes, sintéticas.
Tem hoje, uma empresa de design gráfico, Planeta
Terra Design. Ele ajudou a construir a história
do grafite em São Paulo, tanto com suas imagens
como com sua reflexão teórica sobre elas. |
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Maiá:
Quando e como você foi parar no
grafite?
Zaidler: Foi em
1979. Nunca me esqueço: foi na esquina da Alameda
Franca com a Alameda Campinas. Vi um jacaré do
Alex Vallauri num muro atrás de uma banca de
jornal. Foi a primeira imagem que percebi na rua; foi
um estalo irreversível.
Dias depois, encontrei o Vallauri no ateliê do
Matuck. O Alex já grafitava sistematicamente
há um ano: a botinha já estava espalhada
na cidade. Ou seja, conheci o grafite quando cursava
a FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) o que coincidiu
com a busca do tema para o meu TGI (trabalho de conclusão
de curso). O grafite me conquistou pela questão
da linguagem e do suporte urbano. Matuck e eu começamos
a trocar figurinhas mais intensamente. E daí,
começamos a desenhar juntos.
Maiá: O
Matuck já grafitava na rua?
Zaidler: Ele grafitava
pouco; quem fazia mesmo era o Alex. O Vallauri pintava
desde o final de 1977; acho que o Matuck começou
em 1979. Nós juntamos a idéia da máscara
e desenvolvemos um novo tipo de stencil que aproximava
mais as imagens. Era uma nova utilização
das imagens: uma sobreposição de stencils
que fazia figuras de traços contínuos.
Isso trouxe uma evolução de linguagem.
Deixou de ser apenas uma silhueta isolada para ter um
caráter mais narrativo. O grafite se aproximou
da linguagem de um mural; deixou de ser um carimbo isolado.
Maiá: Você
conheceu os meninos em 1979?
Zaidler: É,
eu entrei para a turma. Na verdade, criávamos
juntos, decidíamos temas e cada um trazia sua
contribuição: um papel e três estiletes.
Era um trabalho a seis mãos que se complementava
Maiá: O
Alex Vallauri era um batedor de imagens?
Zaidler: O Alex
era um apaixonado por imagens. Ele passou da estampa
para a gravura;da gravura, para a reprodução
em série. E dali foi para a cidade. Sua relação
com a cidade era diferente. Ele fez um levantamento
de imagens incríveis de São Paulo; tirou
muita foto: dos muros, de praças... Para ele,
a cidade era uma estamparia: um espaço para aplicar
imagens. O Vallauri realmente gostava do Kitsch,
da botinha, do cafona. Era apaixonado pela cantora cubana,
Célia Cruz, que era cafonérrima, passava
o dia inteiro escutando suas músicas. Convivi
com ele de 1979 até 1986
Ele era incrível.
Maiá: Vocês
decidiam temas? Quais? Histórias em Quadrinhos?
Zaidler: Sim. Eram
histórias. Fizemos um casamento que era uma história
em quadrinhos. O casamento começava com o noivo
num lugar e a noiva em outro mais distante. Depois,
eles andavam e se aproximavam até acontecer a
cena do casamento com todos os familiares: sogra, sogro,
prima, primo, cachorro
Aí, aparecia a Rainha
do Frango Assado com um frango para a festa.
Maiá: Como
era isso espacialmente na cidade?
Zaidler: O noivo
estava na Avenida Sumaré e a noiva, não
me lembro muito bem, mas acho que estava no Largo da
Batata. O noivo andava em direção à
Rua Arthur de Azevedo e a noiva subia a Teodoro Sampaio.
Eles se encontraram no bairro de Pinheiros.
Maiá: Onde
especificamente os noivos se encontraram?
Zaidler: Numa viela
abandonada, próxima da FNAC, perto da Cunha Gago
e a Arthur de Azevedo
Maiá: Eles
casaram ali?
Zaidler: Não.
Eles se encontraram ali, mas casaram numa grande cerimônia
na Marginal Pinheiros, na altura do Banco Santos
Para cada saída, nós decidíamos
um tema. Por exemplo, um perguntava: "O que vai
ser hoje?" "Um porco?", respondia outro.
E complementava: "um porco assado
" E
a produção de máscaras começava
às 15h e ia até 22h. Depois saíamos
para a rua e ficávamos até às 3h
da madrugada: a "hora da Pizza". Era muito
divertido.
Maiá: Mas
a sua contribuição teórica foi
fundamental, não?
Zaidler: Sim. Comecei
a grafitar em 1979. No ano seguinte, fui para o penúltimo
ano da faculdade. Naturalmente, o grafite tornou-se
o tema do meu TGI Tive uma experiência acadêmica
muito interessante. Era um exercício de programação
visual. O professor queria saber como os designers,
urbanistas e arquitetos poderiam contribuir visualmente
para a sedimentação das Associações
de Bairro. Eu escolhi o Itaim e foi um dos grafites
mais legais que fiz. Era um grupo de pessoas reunidas
observando um "líder" que apresentava
a palavra Itaim. Marquei, cerquei - territorialmente
- o bairro com essa imagem. Algumas vezes, o grafite
apresentava a palavra Itaim e, em outros momentos, em
seu lugar, havia uma placa de rua ou outro detalhe característico
do bairro. Como um cachorro que marca o território
com o xixi, fiz os grafites pelo bairro. Foi a única
vez na minha vida de "pichador", em que usei
paredes limpas, não deterioradas.
Maiá: E
como foi a resposta das pessoas do bairro?
Zaidler: A resposta
do bairro foi que ninguém apagou o trabalho;
sumiu naturalmente. O grafite sempre foi muito bem aceito.
Maiá: Então,
você não grafitava em parede limpa?
Zaidler: A escolha
de espaços deteriorados era por uma questão
ética. Sempre fiz intervenções
em lugares deteriorados para mostrar como eles poderiam
ficar mais interessantes. É chamar atenção
para aquilo que compartilhamos visualmente no espaço
público.
Maiá: É
uma forma de chamar atenção?
Zaidler: É.
Embora o muro seja do outro, ele não cuida. Será
que não posso cuidar,uma vez que muro está
caindo aos pedaços?
Maiá: O
que era grafite?
Zaidler: Olha, para
mim, o grafite continua muito próximo deste que
é feito hoje. O grafite é uma intervenção
urbana que não é necessariamente de imagens.
Ou seja, pode ser pichação. O grafite
tem características específicas: ser ilegal
- o grafite é, por definição, ilegal
como a pichação-; é anônimo,
até por ser ilegal; é uma surpresa (para
o espectador, é sempre inesperado); é
uma provocação, uma marca pessoal; é
efêmero. Além disso, estabelece um diálogo
com o contexto no qual está inserido, ou seja,
considera o suporte urbano, apropria-se do espaço.
Para mim, são essas características que
apontam o que é o grafite. Quando se retira uma
característica , ele torna-se uma outra linguagem.
O fato de ser efêmero é uma das características
fundamentais do grafite. Os meninos do TupiNãoDá
eram bárbaros, faziam grafites com giz. Ser efêmero
- uma imagem que hoje está na parede e, amanhã,
não mais- faz com que o grafite não seja
de ninguém, mas de todos.
Maiá: Para
você, a pichação e o grafite são
a mesma coisa?
Zaidler: Acho que
sim. A diferença reside em quem, como e onde
faz
O grafite e a pichação têm
em comum essas características que apontei. O
grafite é mais agradável aos olhos do
que a pichação; é só isso
que muda. A pichação é mais violenta,
porém, leva o olhar para lugares que jamais seriam
percebidos. Ao mesmo tempo, questiona o espaço:
ele era assim e agora é diferente. Aqui, na janela,
é possível ver o topo do prédio
do Fórum de São Paulo (que fica na Praça
João Mendes). E lá há um monte
de letras, garatujas. Está escrito Profecia.
É feio mas tem uma função, uma
literatura; é uma aventura.
Maiá: Quando
vocês começaram a grafitar, alguém
mais grafitava?
Zaidler: Não.
Mas havia as palavras como o Cão Fila
Maiá: Você
também parou depois da Bienal de 85?
Zaidler: Parei.
Depois da Bienal, nunca mais pichamos. Fomos convidados
pela Secretaria de Cultura de Araraquara para fazer
um workshop e pintar um espaço institucional.
Mas eu quis pintar um muro velho, feio, sujo. Quase
levei um tiro. Depois deste episódio, nunca mais
fui para a rua. Afinal, nós pichamos sistematicamente
durante dois anos. Você imagina o que é
isso?
Maiá: Todo
dia?
Zaidler: Três
vezes por semana. Era muita coisa.
Em 1982, o grafite tornou-se chique, perdeu o anonimato,
a autenticidade e a espontaneidade. Nós grafitamos
na rua com muita intensidade entre 1979 e 1984. Para
a Bienal de 85, começamos a trabalhar individualmente.
Em 1985, parei de pichar na rua definitivamente. Em
1986, em homenagem ao Alex, fiz um trabalho com todas
as minhas máscaras. Em 1987, fui convidado para
fazer um mural para o Museu de Indianópolis (USA)
que celebrava os Jogos Panamericanos. Por conta disso,
o Museu buscou artistas da América Latina: Anita
Malfatti, Diego Rivera, entre outros. Foi maravilhoso;
houve condições sérias para trabalhar.
Maiá: Fale
um pouco das suas imagens, como eram?
Zaidler: Uma das
minhas imagens preferidas é um preso na cadeia.
Eu prendi esse sujeito pelo mundo afora: cadeias, escolas,
telefones, muros
Nas escolas, as imagens não
ficavam nem cinco minutos, porque os orientadores apagavam.
Sempre fui curioso a respeito da relação
entre as imagens e as pessoas; como as imagens ocupam
o espaço e interagem com as pessoas. É
a questão dos códigos de sinalização.
Nós três (Vallauri, Matuck e eu) pintamos
um paredão que havia no MAM. A preocupação
dos meninos era fazer imagens grandes, uma vez que a
parede era enorme. Para mim, era o oposto: as imagens
deveriam ser pequeninas. A movimentação
do público em relação a parede
me interessava muito. Era um zigue-zague sem fim. Por
isso, fiz : uma imagem com duas leituras. Quando uma
pessoa via essa composição de longe era
uma determinada imagem; quando chegava perto, era uma
outra.
Maiá: Como
assim?
Zaidler: Sintagma
Visual. Por exemplo, isso me levou a fazer a Cadeira
para a Bienal de 85 que está em exposição
permanente no Metrô da Sé. É uma
cadeira composta por milhares de imagens, uma síntese
da minha coleção de máscaras. É
um sintagma visual: quando se vê de longe parece
ser uma imagem; de perto, percebemos que são
milhares de imagens que formam uma grande imagem. Pintei
essas milhares de imagens nas principais vias de acesso
à Bienal como se estivessem caminhando para dentro
dela para formar a imagem da cadeira. Fiz também
um monte de ratinhos nos banheiros da Bienal mas a curadoria
não achou muita graça.
Maiá: Quando
foi a primeira vez que você fez um sintagma visual?
Zaidler: Foi em
1984. O trabalho chamava-se Ratícula,
eram vários ratos que formavam um gato.
Maiá: Você
pichava mesmo? Escrevia palavras?
Zaidler: Em 1982,
São Paulo vivenciou um boom de campanhas eleitorais
nos muros da cidade. Até então, isso nunca
tinha acontecido.. Engraçado, os pichadores de
campanha eleitoral respeitavam nosso trabalho; desviavam
das imagens. Eu também gostava de escrever. Neste
ano de eleição, escreveram LULA nas paredes
e eu fiz um cardápio de frutos do mar. Escrevi
do lado do Lula: peixe, camarão, polvo
Era
uma lista marítima completa. Isso era pichação
Maiá: Há
alguma história de muro que marcou?
Zaidler: Ah, uma
história que não aconteceu comigo, mas
é muito curiosa. O Matuck outro artista estavam
procurando um muro para grafitar. Acharam um, todo rabiscado,
cheio de palavrões. Foram pedir autorização
para pintar. A dona da casa atendeu. Eles explicaram
o projeto; o que eles queriam. Ela falou: "Ah,
não, de jeito nenhum". Eles insistiram,
dizendo: "Olha, a senhora vai ficar com uma obra
de arte de presente
" Falaram de tudo para
convencer a mulher, até uma hora em que o Matuck
se irritou e disse: "Olha, minha senhora, aqui,
neste muro, está escrito um monte de palavrões:
filha da puta, entre outros
".Ela respondeu:
"Ah, não. Mas isso é normal
".
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Entrevista
realizada pela jornalista Maiá Prado, dia 07
de agosto de 2005.
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