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Carlos
Matuck
É
um dos precursores do graffiti na cidade de São
Paulo. No final dos anos 70, com Alex Vallauri e Waldemar
Zaidler, começou a carimbar imagens pela cidade
quando só existiam palavras - poesias espalhadas
pelos muros. Depois da Bienal de 85, nunca mais grafitou
na rua, porém, a linguagem nunca deixou sua vida.
Matuck é artista plástico, desenvolve
uma série de trabalhos com estênceis em
seu ateliê. Como os seus recortes, graffitis-portáteis,
que são vendidos em lojas de design. Colecionador
cuidadoso, guarda em pequenas caixas: selos, carimbos,
lembranças de um passado. Apaixonado por histórias
em quadrinhos, é obcecado pelo personagem TinTin;
chegou até a traduzir as entrevistas que o quadrinista
belga Hergé deu. Sente saudades de um muralismo
que não fez na rua. Apesar de já ter realizado
em outros espaços. Atualmente, está construindo
o maior mural de sua vida: cerca de 320 metros quadrados
para o SESC. |
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Maiá:
Quando você começou a grafitar? Já
conhecia o Alex Vallauri?
Matuck: Conheci
o Vallauri no ateliê do Rubens Matuck, meu irmão
mais velho. Não lembro exatamente a data: foi
por volta de 75 / 76
Eu já vinha trabalhando
com carimbos de borracha, marmorizações,
recortes, usava bastante o estilete.
Maiá: Como surgiu
o carimbo no seu trabalho?
Matuck: Acho que
foi o contato com a gravura, porque são linguagens
próximas. Fiz um curso de gravura em metal com
o Sérgio Fingermann. E comecei a colecionar carimbos,
com os quais brincava porque tinham uma certa agilidade
em relação à gravura.
Maiá: Eram os
carimbos da fábrica Dulcemira?
Matuck: Estes apareceram
mais tarde. Os primeiros carimbos eram mais baratos;
conseguia comprar. Eram carimbos escolares, infantis,
de bichinhos. Tinha uma caixa enorme com 100 carimbos:
coelho, balão, pipa
bem antiga, de quando
era criança. Eu fazia um trabalho mais moderno,
usando carimbos como recurso gráfico e plástico.
Fazia estênceis rudimentares para carimbar. Com
o Vallauri, conheci os carimbos da fábrica Dulcemira,
na Rua Aurora, que eram usados em papéis de embrulho
de padaria, mercado
Os carimbos de borracha são
utilizados num processo de impressão em anilina
muito rudimentar; como clichês. Muitas das figuras
que o Vallauri e eu usávamos vieram da fábrica
Dulcemira: as vedetes, o frango assado
Maiá: Você
já relacionava os carimbos com os estênceis?
Matuck: Não.
Eu relacionava o carimbo com a colagem. No meu caso,
recortava e colava imagens carimbadas. Por isso, a colagem
e o carimbo andavam juntos. Meu trabalho com a marmorização,
por volta de 77, era mais um passo em direção
ao estêncil. Percebi que dava para colocar um
estêncil em cima da água preparada e marmorizar
só aquela área como se faz na gravura.
Maiá: Como foi
a parceria com o Vallauri?
Matuck: Nossa
primeira conversa foi sobre carimbos. Depois, conversamos
sobre quadrinhos. Sou um apaixonado por quadrinhos.
Maiá: Em 1977,
o Vallauri já pintava na rua?
Matuck: Ele
já fazia umas imagens na rua, enquanto, na Lapa,
no ateliê que era na garagem da casa dele, fazia
estamparia com xilogravura.
Maiá: Você
reparava no que estava sendo feito nas ruas?
Matuck:
Na verdade, via as imagens do Alex. Comecei a prestar
atenção quando ele falou de seu trabalho,
embora já conhecesse as inscrições
como o Cão Fila. E outras palavras escritas de
uma maneira interessante, como, por exemplo: É
difícil, Maria Clara quero a gema.
Maiá: Era palavras-poesia
Matuck: Tinha
também a Hora H, do Tadeu Jungle. Eram palavras
gráficas que se relacionavam com a poesia concreta.
Maiá: E o seu
primeiro graffiti? Quando foi?
Matuck: Foi
em 1978. Não foi uma novidade, porque já
fazia recorte com estilete em papel no ateliê.
Nunca usei tesoura no meu trabalho. A novidade foi o
uso do spray. Fui obrigado a perceber como usá-lo.
Demorei a entender como fazer para não estragar
o trabalho, não deixar o spray escorrer. Como
o Vallauri tinha muita prática, aprendi muito
com ele.
Maiá: Seus primeiros
graffitis foram o Reizinho e o Tintin???
Matuck: Sim.
Os primeiros estênceis e carimbos que fiz têm
uma relação direta com quadrinhos. E o
Vallauri também fez a Panterinha do Jim das Selvas,
do desenhista Alex Raymond.
Maiá: Como era
sua relação com o Vallauri?
Matuck: É
difícil falar do Vallauri. Ele era uma figura
maravilhosa. Lembro claramente o que nós vivenciamos
juntos, as noites que passamos no ateliê, brincando
com os carimbos, ou só conversando
Vallauri
era uma figura de altíssimo astral, super engraçada.
Eu era um moleque quando começamos a trabalhar
juntos e ele já era um artista. O Vallauri abriu
um espaço para trabalhar como parceiro e não
como assistente. Logo, começamos a criar graffitis.
Maiá: Ou seja,
eram parceiros?
Matuck: É,
fomos parceiros. Lembro das tardes que passamos juntos
criando máscaras. Desenhar com outra pessoa é
difícil e, mesmo assim, fizemos várias
máscaras.
Maiá: Como era
criar graffitis em grupo?
Matuck: O
Vallauri fazia uma daquelas vedetes dos anos 50
Às
vezes, fazia uma mocinha sentada numa cadeira chaise
longue (espreguiçadeira) que falava ao telefone.
Aí, eu fazia um homem dando flores para ela,
como se fosse um namorado, um pretendente. Ele fazia
uma figura e eu outra.
Maiá: Eram à
mão livre?
Matuck: Eu
fazia à mão livre. O Vallauri fazia meio
misto: Aplicava as luvinhas, as botinhas, o telefone
e completava o resto à mão livre, formando
uma vedete falando ao telefone.
Maiá: Qual era
o grande atributo do estêncil?
Matuck: O
trabalho com estêncil sempre é menos espontâneo
porque já tem a imagem pronta. Por isso, era
possível ser mais crítico em relação
à cidade; pensar melhor na intervenção.
A escolha do lugar era pensada de antemão, porque
já tínhamos o tamanho da imagem, ou seja,
sabíamos se funcionaria ou não num determinado
local. Também levávamos em conta a direção
do pedestre, do carro e a cor da parede. A imagem precisava
estar inserida dentro do contexto da cidade. No fundo,
foi isso que nos levou a fazer graffiti.
Maiá: Você
só grffitou com o Vallauri e o Zaidler?
Matuck: Sim.
Fazer graffiti sozinho não tem muita graça.
A não ser que você seja um obsessivo como
o Vallauri, porque, para ele, não havia dia ou
horário certo. Ele era o andarilho; a bota era
quase uma metáfora dele mesmo. Sempre andava
a pé ou de táxi com uma bolsa pendurada
cheia de máscaras e spray. São famosas
suas máscaras feitas com capa de disco antigo.
A bota é a capa e a contra-capa de um velho vinil
aberto e recortado que ele dobrava e colocava na bolsa.
Ele gostava de pintar de dia, eu sempre pintei à
noite.
Maiá: O Vallauri
precisava carimbar a cidade mais do que vocês?
Matuck: Muito
mais. Eu não tinha essa vontade obsessiva de
sair toda semana. Eu era carregado para a rua pelo Vallauri.
Se deixasse, ele sairia todo dia. Conseqüentemente,
o Zaidler e eu também nunca iríamos parar
de grafitar. Para mim, grafitar toda hora, não
era fácil.
Maiá: Como assim?
Matuck: Eu
também queria ficar no ateliê: pintar,
desenhar, colar; ficava dividido com essa demanda. Além
disso, o Zaidler e eu tínhamos um outro graffiti
diferente daquele que fazíamos com o Vallauri.
Maiá: Qual era
a diferença?
Matuck: O
nosso trabalho era inteiramente feito com máscara.
Do ponto de vista formal, era mais rigoroso, pensado
e menos espontâneo. Para o Vallauri, as máscaras
eram apenas um veículo para fazer as maluquices
dele. Por isso, eram mais descartáveis, menos
elaboradas, mais rápidas e diretas. Além
do que o graffiti do Vallauri tinha mais humor.
O nosso tinha humor mas era diferente. Ele tinha uma
paixão por Cuba, pela música cubana e
pelas mulheres dos anos 50. Era tudo muito divertido.
Maiá: Havia alguma
preocupação com o espaço público
e as mensagens?
Matuck: Nós
tínhamos clareza de que não deveríamos
escrever. Nossa praia era fazer intervenções
urbanas. Fazíamos cenas, brincadeiras, sempre
com humor. Houve também a influência da
FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) e da parceria
com o Zaidler, um velho amigo que conhecia desde criança.
O Zaidler se formou na FAU. Acompanhei de perto o TGI
(trabalho de conclusão de curso) dele, fizemos
a parte de imagens juntos. Esse fato trouxe para o grupo
uma preocupação com a cidade, no sentido
da intervenção urbana. A leitura do espaço
urbano tornou-se mais diferenciada, sofisticada. Questões
como " Onde se aplica um graffiti? E onde
não se aplica um graffiti?" , apareceram.
Maiá: Como foi
a entrada do graffiti nas galerias?
Matuck: Como
o graffiti evoluiu e ficou na moda, já
em 79 / 81, as galerias começaram a puxar-nos
para dentro delas. Era complicado porque já éramos
artistas plásticos e sabíamos que o graffiti
não tinha nada a ver com isso. Em todas exposições,
tentamos evitar o nome graffiti, não conseguimos.
Maiá: Como assim?
Matuck: A
primeira exposição que fizemos na Galeria
São Paulo, em dezembro, de 1983 - eu, o Vallauri
e o Zaidler - chamava-se Mural Graffiti porque,
para nós, a exposição em galeria
não era grafite, era mural. Como os curadores
queriam colocar a palavra graffiti, então,
ficou Mural Graffiti. O graffiti é
uma intervenção apropriatória do
espaço; é uma contravenção.
Ou há uma especificidade na linguagem ou não
há. Ou é graffiti ou não
é.
Maiá: E a repressão?
Matuck: Não
sofremos. Mas tenho amigos que apanharam da polícia.
Não há nenhum episódio com a polícia
que tenha me marcado. Entretanto, estava sempre preparado
para fugir
Maiá: Como foi
a evolução do graffiti? Tinha as
máscaras simples do Vallauri
Matuck: A
evolução foi muito rápida. Quando
as máscaras apareceram, sofisticaram-se rapidamente.
A partir daí, começamos a usar grampo
para conseguir uma imagem com recortes, sem ponte. Surgiu
quase naturalmente.
Maiá: E as diferenças
de estilo?
Matuck: Quando
aconteceu a 18 º Bienal de 1985, as diferenças
ficaram claras. O Vallauri fez A Rainha do Frango Assado,
eu fiz Joaquim, Mário e Affonso, uma homenagem
à três escritores negros do Brasil e o
Zaidler fez A Cadeira. Na Bienal, foi possível
ver como as imagens se encontraram e se distanciaram
também. Nunca mais pintei na rua depois da Bienal.
Maiá: Por que
você parou de grafitar?
Matuck: Na
rua, parei em 1985, mas nunca parei de grafitar. Continuei
fazendo murais, painéis, telas, sempre usando
o estêncil. Meu trabalho ficou muito complexo,
cheio de detalhes, inviável de fazer na rua.
Já fazia imagens visando um muralismo que não
aconteceu. Apenas, em espaços institucionais,
como o SESC.
Maiá: Você
não tem mais vontade de grafitar na rua?
Matuck: Não
tenho
acho que a cidade mudou muito. Não
me sinto mais atraído, não tenho mais
vontade. Já tive muita vontade de fazer murais
urbanos mas acho que não tem muita chance de
acontecer em São Paulo.
Maiá: Como você
vê o graffiti hoje?
Matuck: Não
sei dizer, porque não acompanho muito. Vi graffitis
pontuais dos Gêmeos, do Beco Escola Aprendiz e
do Mural da 23 de maio. Veio outra geração
que tomou conta, e está bem na mão deles.
Maiá: Foi-se
o seu tempo da rua?
Matuck: Com
certeza. Ainda hoje, utilizo tudo que aprendi na rua.
Meu trabalho está relacionado com os graffitis
que fiz naquela época, com os quadrinhos que
li, os carimbos com que brinquei, as colagens e desenhos
que fiz. Descubro sempre novas possibilidades com o
estêncil.
Maiá: Você
tem algum graffiti afetivo, uma máscara
especial?
Matuck: Tenho
um Tintin bem antigo de que gosto muito. Virou um objeto,
porque a máscara está tão pintada;
é uma crosta de tinta
Guardei várias
máscaras que são históricas. Por
exemplo, o peão. Tenho todas as versões
que fiz dele. O peão foi uma máscara que
fiz mas nunca pintei
Na realidade, ela tinha a
ver com o trabalho do Alex. Por isso, ele ficou com
ela. O Alex sempre fazia em baixo da acrobata inspirado
no Seurat. |
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Entrevista
realizada pela jornalista Maiá Prado, dia 24
de julho de 2005.
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